A idéia de Brasil

Diversas ideias de Brasil ocorrem no tempo. Políticos, cientistas, filósofos e artistas concorrem com obras e interpretações diversas. Só para citar alguns autores mais próximos ao sentido de desbravamento e patriotismo, temos: o conde Affonso Celso (1860-1938), autor do livro Porque me Ufano de meu País, sempre citado como referência elogiosa sem reservas do “não verás país como este”; Gonçalves Dias (1823-1864) , que, ao cantar em Canção do Exílio (1847) o “minha terra tem palmeiras”, reforça essa admiração exacerbada; Stefan Zweig (1881-1942), que descreve o Brasil como país do futuro, em 1941, mesmo chocado com as brutalidades da Segunda Guerra Mundial e sua vil utopia.

Monteiro Lobato (1882-1948) investiu em uma ideia de Brasil na Literatura e, para demonstrá-la, usou o personagem Jeca Tatu (símbolo do “interior amarelão”) para reagir e buscar o “moderno”. Oswaldo Cruz (1872-1917) e Carlos Chagas (1879-1934) (e mais tarde Josué de Castro (1908-1973) e Paulo Freire (1921-1997)) protestaram contra a tal “inferioridade do povo”, provando que a deficiência era consequência da conjuntura injusta da sociedade e sugerindo que a educação seria um caminho de construção até contra a desgraça das doenças tropicais.

Euclides da Cunha (1866-1909) narra a heroica resistência de Canudos no épico Os Sertões (1902) e escreve ensaios sobre a Amazônia com essa intenção de revelação e choque entre “brasis ocultos”. Cassiano Ricardo (1895-1974) exalta, no ensaio Marcha para Oeste (1940) e na poesia, com Martim Cererê (1928), essa busca de brasilidade. Affonso Arinos (1868-1916) acentua, no livro de contos Pelo Sertão (1898), o “Buriti Perdido” que hoje simboliza a praça em frente ao palácio do governo de Brasília, projetado por Oscar Niemeyer. Guimarães Rosa (1908- 1967) dá asas ao imaginário e tece, em linguagem rude, o requinte de narrativas eruditas nascidas do próprio povo.

Autores como Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala (1954), Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1956) e Visão do Paraíso (1977), Florestan Fernandes, em A organização social dos Tupinambás (1949), e Caio Prado Jr., em Formação do Brasil Contemporâneo (1942), são outras referências na construção dessa brasilidade singular e plural ao mesmo tempo.

Nessa febre de ocupação do interior (a ser desbravado), surgem movimentos como o do governo Vargas, ao criar a Fundação Brasil Central, em harmonia com a Expedição Roncador-Xingu. Tudo isso conspira para mobilizar o governo Juscelino Kubitschek à ocupação das vastas regiões no Planalto Central, como parte de sua metassíntese de governo: a construção de Brasília.

Sertanista Orlando Villas Bôas | Helmut Sick/Museu do índio/Funai
Sertanista Orlando Villas Bôas  |  Helmut Sick/Museu do índio/Funai
Zoom

Ariano Suassuna, hoje, cita o choque entre “um Brasil real e o Brasil oficial”, entre o urbano e o rural, o litoral e o interior, o atrasado e o evoluído, sempre buscando aprimorar o princípio republicano de justiça igualitária para todos.

Nesse contexto, o trabalho de Rondon, ao despertar o Brasil para a presença dos povos indígenas, colabora também, de alguma forma, para o reconhecimento da riqueza da diversidade mestiça brasileira, em que as contribuições dialogam e se reinventam.

Rondon na sequência do documentário Parimã | Luiz Thomaz Reis/Museu do índio/Funai
Rondon na sequência do documentário Parimã  |  Luiz Thomaz Reis/Museu do índio/Funai
Zoom