“Vem morrer aqui”

Em 19 de janeiro de 1958, Rondon morre no Rio de Janeiro, na data de aniversário de Augusto Comte, criador do Positivismo. É sepultado com honras de chefe de Estado no Cemitério São João Batista.

Eis alguns trechos do discurso de Darcy Ribeiro no sepultamento:

Quero recordar aqui os quatro princípios de RONDON, aqueles que orientam a política indigenista brasileira desde 1910, mas constituem, ainda hoje, a mais alta formulação dos direitos dos 60 milhões de indígenas de todo o mundo.

O primeiro princípio de RONDON, ‘morrer, se preciso for, matar, nunca’, foi formulado no começo deste século, quando, devassando os sertões impenetrados de Mato Grosso, ia ao encontro de tribos mais aguerridas, com palavras e gestos de paz, negando-se a revidar seus ataques, por entender que ele e sua tropa eram os invasores e, como tal, seriam criminosos se desse contato resultasse a morte de um índio.

(...) O segundo princípio de RONDON é o do respeito às tribos indígenas como povos independentes que, apesar de sua rusticidade e por motivo dela mesma, têm o direito de ser eles próprios, de viver suas vidas, de professar suas crenças e de evoluir, segundo o ritmo de que sejam capazes, sem estarem sujeitos a compulsões de qualquer ordem e em nome de quaisquer princípios.

(...) O terceiro princípio de RONDON é o de garantir aos índios a posse das terras que habitam e são necessárias à sua sobrevivência.

(...) O quarto princípio de RONDON é assegurar aos índios a proteção direta do Estado, não como um ato de caridade ou de favor, mas como um direito que lhes assiste por sua incapacidade de competir com a sociedade dotada de tecnologia infinitamente superior que se instalou sobre seu território. (...) Graças aos esforços de RONDON, sobrevive hoje no Brasil uma centena de milhares de índios que não existiriam sem seu amparo.

Aqui estamos para dizer-vos que nada nos fará desanimar do propósito de dedicar o melhor de nossas energias para a realização dos vossos princípios. Nenhum de nós, ninguém, pode substituir-vos. Mas, talvez mil reunidos sob o patrocínio do vosso nome possam tornar menos gritante o grande vazio criado com a vossa morte.

(RIBEIRO,1958, p. 7 e 8 )

O Marechal Rondon é síntese daqueles produtos da raça de gigantes do passado com o homem do séc. XX.

(Palavras do diretor do Museu Paulista, Sérgio Buarque de Holanda, em homenagem ao criador do Serviço de Proteção ao Índio, durante sessão plenária do Instituto Histórico Geográfico).

Índio Bororo, apelidado Cadete, e Rondon | Helio Bucker/Museu do Índio/Funai
Índio Bororo, apelidado Cadete, e Rondon  |  Helio Bucker/Museu do Índio/Funai

Comovente é a longa amizade desenvolvida entre Rondon e o chefe Bororo Cadete. Tamanha afeição levava sempre Cadete a alertar Rondon para morrer entre “os seus”, os Bororo. “Vem morrer aqui, porque bororo sabe chorar seus mortos”. Por ironia, Cadete morreu antes e Darcy Ribeiro foi ao funeral do cacique com a missão de representar Rondon na cerimônia. “Ele – Darcy – é meu olho, minha boca”, escreveu Rondon no texto de apresentação de Darcy à tribo.